Onde, como, até quando, para quê?
Preso incomunicável até a pandemia
passar, aguardando julgamento.
Ciclamio L. Barreto
Escrito em 03.mai.2020 | Publicado em 13.mai.2020
“O que é do homem, os bichos não comem.”
Esse é um falso provérbio que gozava de popularidade entre meus colegas de
adolescência no bairro do Alecrim, em Natal, nos idos anos 1960. Nunca
acreditei nas palavras literais, pois dificilmente presenciava bichos (cães, gatos
etc.) se negarem a comer alimentos das pessoas. Aos poucos, fui me
conscientizando do sentido metafórico, o qual também não se mostrou muito
convincente. As ações humanas algumas vezes violam essa assertiva, ao ponto
dela se mostrar carente de expressar o real significado pretendido. O exemplo
mais marcante neste século 21 provavelmente são as flagrantes ameaças que
pairam sobre um dos mais preciosos bens das populações, as quais são os
frequentes ataques às democracias do mundo. Para ficar só no Brasil recente, o
país caiu em um abismo profundo a partir do golpe de estado levado a efeito em
2016, promovido por diversos setores da sociedade para impedir um governo
eleito democraticamente de governar, de terminar seu mandato. A democracia, que
deve ser vista como um bem maior da sociedade, foi terrivelmente atacada em
nome de interesses insidiosos, que se mostraram até mesmo criminosos, e que
desmontam e desfazem o país até hoje.
Um dos piores acontecimentos do
pós-golpe se cristalizou com a eleição para presidente em 2018 de um candidato
nefasto, que nunca escondeu o que seria um governo que liderasse. O vencedor,
Jair Bolsonaro, mostrou-se na realidade um presidente ainda pior que a
encomenda. Simplesmente, por má fé, incompetência, desqualificação, ausência de
qualquer preparo para o exercício do cargo e uma sede enorme de poder, esse
presidente revelou-se uma tragédia nacional. O cidadão mais nocivo ao bem estar
comum da Nação. Seus patrocinadores, com seus interesses satisfeitos, não têm
se importado tanto com essa tragédia. Para eles, dos males, o menor. A tragédia
da Nação não será tragédia, enquanto não afetar suas vantagens, seus lucros.
(...)
Os bolsonaristas que persistem em atacar
os defensores do distanciamento social, medida indispensável nesta pandemia da
CoViD-19, causada pelo novo vírus corona, algumas vezes alegam que estão
defendendo o livre arbítrio, a necessidade do trabalho, enfim, a liberdade das
pessoas, até mesmo o direito de ir e vir. Desdenham das medidas tomadas pelos
governadores para combater o contágio pelo vírus, alegando que o país não é uma
ditadura ao mesmo tempo que pedem uma intervenção militar. Além de dar chances
ao vírus, esses manifestantes almejam levar uma vida que precipuamente atenda
suas necessidades e interesses, de modo completamente alheio às necessidades e
interesses da população em geral. Contribuindo deliberadamente para eles
próprios contraírem o vírus – o que beira a loucura – e desenvolver a doença,
eles também agem similarmente para contaminar outras pessoas, pois evitam ou em
geral não seguem os preceitos determinados pelos órgãos de controle e prevenção
de doenças, desde a Organização Mundial de Saúde até as Secretarias de Saúde do
município e do estado (ou distrito federal). Há até casos extremos que vemos
cotidianamente, por exemplo, de discursos que falam da pandemia como uma farsa.
Essa cruzada anticiência se fundamenta, em uma de suas faces, tanto na mais
pura ignorância e na mais pungente falta de uso da inteligência, como na outra
face, no fanatismo político-religioso, incentivado por uma liderança que não tem a mínima
preocupação com a população, senão com os seus próprios interesses e de sua
família e aliados, e que deixado atuar sem limitações constitucionais acabará
implantando no país uma ditadura desqualificada e plena de horrores para a
população. Só no passado domingo (03/05/2020), em ato em frente ao Palácio do
Planalto, Bolsonaro discursou a seus apoiadores pedindo “a Deus que não
tenhamos problemas nesta semana, porque chegamos no limite.” Não explicou o que
isso significa, mas disse também, enquanto participava de ato com pautas
antidemocráticas, que as Forças Armadas estão do lado dele e que “não tem mais
conversa” e que “não vai mais admitir interferência”. Ao longo da semana,
representantes das forças armadas deixaram bem claro que não lhes incumbe
ingressar em aventuras políticas, que a Nação tem uma constituição que deve ser
seguida e desautorizaram Bolsonaro a continuar falando pelas forças armadas.
Tudo isso acontece simultaneamente ao
desenrolar da pandemia de CoViD-19, que assola o Brasil de modo devastador.
Para esse fato, Bolsonaro não dá a mínima atenção, a pandemia não faz parte de
suas preocupações. Suas manifestações concernentes a ela sempre reverberam aos
seus apoiadores como incentivos a desobedecer as prescrições de combate ao
contágio pelo vírus. Todos devem lembrar da resposta em forma de pergunta “E
daí? O que você quer que eu faça?”, quando solicitado a comentar o fato do
Brasil ultrapassar 5 mil mortes causadas pela pandemia.
As instituições brasileiras devem agir
para defenestrar esse ser nefasto do poder agindo constitucionalmente e
emudecê-lo preso até passar a pandemia, quando deve ser julgado pelos muitos
crimes que vem diuturnamente cometendo e que sejam reconhecidos e punidos por
quem de direito. Assim, poderemos bem dizer que “o que é do homem, os bichos
não comem” para referir o fato de que ninguém tem o direito de usurpar a
democracia do povo brasileiro, muito menos sendo eleito para ocupar o cargo
público máximo. E quem a isso se dispuser deverá pagar caro, ainda que dentro
da constituição.
