quarta-feira, 13 de maio de 2020


Onde, como, até quando, para quê?
Preso incomunicável até a pandemia passar, aguardando julgamento.      

Ciclamio L. Barreto 
Escrito em 03.mai.2020 | Publicado em 13.mai.2020

“O que é do homem, os bichos não comem.” Esse é um falso provérbio que gozava de popularidade entre meus colegas de adolescência no bairro do Alecrim, em Natal, nos idos anos 1960. Nunca acreditei nas palavras literais, pois dificilmente presenciava bichos (cães, gatos etc.) se negarem a comer alimentos das pessoas. Aos poucos, fui me conscientizando do sentido metafórico, o qual também não se mostrou muito convincente. As ações humanas algumas vezes violam essa assertiva, ao ponto dela se mostrar carente de expressar o real significado pretendido. O exemplo mais marcante neste século 21 provavelmente são as flagrantes ameaças que pairam sobre um dos mais preciosos bens das populações, as quais são os frequentes ataques às democracias do mundo. Para ficar só no Brasil recente, o país caiu em um abismo profundo a partir do golpe de estado levado a efeito em 2016, promovido por diversos setores da sociedade para impedir um governo eleito democraticamente de governar, de terminar seu mandato. A democracia, que deve ser vista como um bem maior da sociedade, foi terrivelmente atacada em nome de interesses insidiosos, que se mostraram até mesmo criminosos, e que desmontam e desfazem o país até hoje.

Um dos piores acontecimentos do pós-golpe se cristalizou com a eleição para presidente em 2018 de um candidato nefasto, que nunca escondeu o que seria um governo que liderasse. O vencedor, Jair Bolsonaro, mostrou-se na realidade um presidente ainda pior que a encomenda. Simplesmente, por má fé, incompetência, desqualificação, ausência de qualquer preparo para o exercício do cargo e uma sede enorme de poder, esse presidente revelou-se uma tragédia nacional. O cidadão mais nocivo ao bem estar comum da Nação. Seus patrocinadores, com seus interesses satisfeitos, não têm se importado tanto com essa tragédia. Para eles, dos males, o menor. A tragédia da Nação não será tragédia, enquanto não afetar suas vantagens, seus lucros.

(...)

Os bolsonaristas que persistem em atacar os defensores do distanciamento social, medida indispensável nesta pandemia da CoViD-19, causada pelo novo vírus corona, algumas vezes alegam que estão defendendo o livre arbítrio, a necessidade do trabalho, enfim, a liberdade das pessoas, até mesmo o direito de ir e vir. Desdenham das medidas tomadas pelos governadores para combater o contágio pelo vírus, alegando que o país não é uma ditadura ao mesmo tempo que pedem uma intervenção militar. Além de dar chances ao vírus, esses manifestantes almejam levar uma vida que precipuamente atenda suas necessidades e interesses, de modo completamente alheio às necessidades e interesses da população em geral. Contribuindo deliberadamente para eles próprios contraírem o vírus – o que beira a loucura – e desenvolver a doença, eles também agem similarmente para contaminar outras pessoas, pois evitam ou em geral não seguem os preceitos determinados pelos órgãos de controle e prevenção de doenças, desde a Organização Mundial de Saúde até as Secretarias de Saúde do município e do estado (ou distrito federal). Há até casos extremos que vemos cotidianamente, por exemplo, de discursos que falam da pandemia como uma farsa. Essa cruzada anticiência se fundamenta, em uma de suas faces, tanto na mais pura ignorância e na mais pungente falta de uso da inteligência, como na outra face, no fanatismo político-religioso, incentivado por uma liderança que não tem a mínima preocupação com a população, senão com os seus próprios interesses e de sua família e aliados, e que deixado atuar sem limitações constitucionais acabará implantando no país uma ditadura desqualificada e plena de horrores para a população. Só no passado domingo (03/05/2020), em ato em frente ao Palácio do Planalto, Bolsonaro discursou a seus apoiadores pedindo “a Deus que não tenhamos problemas nesta semana, porque chegamos no limite.” Não explicou o que isso significa, mas disse também, enquanto participava de ato com pautas antidemocráticas, que as Forças Armadas estão do lado dele e que “não tem mais conversa” e que “não vai mais admitir interferência”. Ao longo da semana, representantes das forças armadas deixaram bem claro que não lhes incumbe ingressar em aventuras políticas, que a Nação tem uma constituição que deve ser seguida e desautorizaram Bolsonaro a continuar falando pelas forças armadas.

Tudo isso acontece simultaneamente ao desenrolar da pandemia de CoViD-19, que assola o Brasil de modo devastador. Para esse fato, Bolsonaro não dá a mínima atenção, a pandemia não faz parte de suas preocupações. Suas manifestações concernentes a ela sempre reverberam aos seus apoiadores como incentivos a desobedecer as prescrições de combate ao contágio pelo vírus. Todos devem lembrar da resposta em forma de pergunta “E daí? O que você quer que eu faça?”, quando solicitado a comentar o fato do Brasil ultrapassar 5 mil mortes causadas pela pandemia.
As instituições brasileiras devem agir para defenestrar esse ser nefasto do poder agindo constitucionalmente e emudecê-lo preso até passar a pandemia, quando deve ser julgado pelos muitos crimes que vem diuturnamente cometendo e que sejam reconhecidos e punidos por quem de direito. Assim, poderemos bem dizer que “o que é do homem, os bichos não comem” para referir o fato de que ninguém tem o direito de usurpar a democracia do povo brasileiro, muito menos sendo eleito para ocupar o cargo público máximo. E quem a isso se dispuser deverá pagar caro, ainda que dentro da constituição.

Nenhum comentário: