domingo, 27 de dezembro de 2009

Para salvar o planeta, salvem os mares

Para ler o artigo original "To Save the Planet, Save the Seas", clique no 'link' http://www.nytimes.com/2009/12/27/opinion/27lafolley.html e aceda o sítio. Uma cópia é reproduzida abaixo:
Published: December 26, 2009

Peterborough, England

FOR the many disappointments of the recent climate talks in Copenhagen, there was at least one clear positive outcome, and that was the progress made on a program called Reducing Emissions From Deforestation and Forest Degradation. Under this program, key elements of which were agreed on at Copenhagen, developing countries would be compensated for preserving forests, peat soils, swamps and fields that are efficient absorbers of carbon dioxide, the primary heat-trapping gas linked to global warming.

This approach, which takes advantage of the power of nature itself, is an economical way to store large amounts of carbon. But the program is limited in that it includes only those carbon sinks found on land. We now need to look for similar opportunities to curb climate change in the oceans.

Few people may realize it, but in addition to producing most of the oxygen we breathe, the ocean absorbs some 25 percent of current annual carbon dioxide emissions. Half the world’s carbon stocks are held in plankton, mangroves, salt marshes and other marine life. So it is at least as important to preserve this ocean life as it is to preserve forests, to secure its role in helping us adapt to and mitigate climate change.

Sea-grass meadows, for example, which flourish in shallow coastal waters, account for 15 percent of the ocean’s total carbon storage, and underwater forests of kelp store huge amounts of carbon, just as forests do on land. The most efficient natural carbon sink of all is not on land, but in the ocean, in the form of Posidonia oceanica, a species of sea grass that forms vast underwater meadows that wave in the currents just as fields of grass on land sway in the wind.

Worldwide, coastal habitats like these are being lost because of human activity. Extensive areas have been altered by land reclamation and fish farming, while coastal pollution and overfishing have further damaged habitats and reduced the variety of species. It is now clear that such degradation has not only affected the livelihoods and well-being of more than two billion people dependent on coastal ecosystems for food, it has also reduced the capacity of these ecosystems to store carbon.

The case for better management of oceans and coasts is twofold. These healthy plant habitats help meet the needs of people adapting to climate change, and they also reduce greenhouse gases by storing carbon dioxide. Countries should be encouraged to establish marine protected areas — that is, set aside parts of the coast and sea where nature is allowed to thrive without undue human interference — and do what they can to restore habitats like salt marshes, kelp forests and sea-grass meadows.

Managing these habitats is far less expensive than trying to shore up coastlines after the damage has been done. Maintaining healthy stands of mangroves in Asia through careful management, for example, has proved to cost only one-seventh of what it would cost to erect manmade coastal defenses against storms, waves and tidal surges.

The discussions in Copenhagen have opened the way for all countries to improve the management of oceans and coasts to harness their immense potential to mitigate climate change — especially over the next decade, while the world’s politicians, scientists and engineers develop longer-term strategies for stabilizing the atmospheric concentration of greenhouse gases.

In their continuing negotiations on climate change, nations should now make it a priority to produce a single map of the world that documents all the different types of coastal carbon sinks, and identify the ones that are in most immediate need of preservation. New studies should be undertaken to better understand how best to manage these areas to increase carbon sequestration. Then, following the example of the forests program, it will be possible to establish formulas for compensating countries that preserve essential carbon sinks in the oceans.

We urgently need to bring the ocean into the agenda alongside forests so that, as soon as possible, we can help the oceans to help us.

Dan Laffoley is the marine vice chairman of the World Commission on Protected Areas at the International Union for Conservation of Nature and the principal specialist for marine at Natural England.

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terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Outra educação é possível

Natal, Brasil, uma Sexta-feira na primavera de 2051.

Estavam sendo concluídos os últimos preparativos para a Primeira Reunião Decenal de Avaliação e Perspectivas dos Progressos Globais da Ciência (RDAPPGC I).

O tema geral da Reunião já havia sido definido: "Atitudes científicas: paradigmas para a vida cotidiana".

Os membros da comissão organizadora, exaustos de tanto trabalho, deram-se a chance de um momento de descontração e decidiram jantar juntos em um restaurante que pairava sobre a praia de Ponta Negra, com vista para o Centro de Convenções em que se realizaria a Reunião a qual estavam empenhados em organizar, e para a cidade do Natal, como uma das opções de terraço, ou com vista para o Morro do Careca e para o oceano Atlântico como outra esplendorosa opção, naquela noite de lua cheia.

Essa novidade tecnológica de controle gravitacional, que permite sustentar objetos massivos no ar, agora passava a ser empregada na construção civil com grande entusiasmo, principalmente depois que foi controlado o nível de ruído que caracterizava as primeiras iniciativas, nos anos 2030.

Todos vestiram a mochila propulsora que era disponibilizada e arremeteram para lá, aproximadamente a um quilômetro da praia, a uma altitude de aproximadamente cem metros em relação ao nível do mar.

Inevitavelmente, surgiram conversas sobre o próprio trabalho em que estavam envolvidos, e houve conjecturas a respeito dos temas que seriam mais concorridos no evento.

Dentre estes, certamente, haveria um público ávido por novas informações a respeito do processo de declínio da concentração de dióxido de carbono na atmosfera terrestre, iniciado em 2010 por decisão das históricas conversações climáticas de Copenhague, em Dezembro de 2009, oficialmente Convenção Estrutural das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas.

Naquelas conversações, alguém lembrou, foi decisivo o papel de liderança desempenhado pelos presidentes Lula, do Brasil, Hu Jintao, da China, e Manmohan Singh, da Índia, com o apoio do presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, na sessão decisiva do último dia.

Mas em um momento alguém chamou a atenção para o simples fato de estarem ali reunidos, lembrando da trajatória de todos os envolvidos, desde os tempos da então nova escola secundária (antigo ensino médio) nos já longínquos anos 2020.

Todas aquelas pessoas pertenciam à primeira geração de brasileiros que teve sua formação realizada dentro da vigência da Reforma Educacional Brasileira, sistema de educação consubstanciado em lei, que fez avançar de forma revolucionária, na segunda década do século, quando todos ali presentes ainda eram adolescentes, a antiga Lei de diretrizes e bases da educação nacional.

O governo democraticamente eleito de Dilma Roussef, primeira mulher a chegar à presidência do Brasil, tendo à frente do Ministério da educação o ministro Fernando Haddad, o mesmo do governo Lula, desempenhou um papel histórico de coordenar o processo da Reforma no âmbito de toda a sociedade brasileira.

A opção preferencial pela escola pública foi tema de campanha midiática, para chamar a atenção da população que buscava qualidade de ensino e professores qualificados.

Todos reconheciam o privilégio de pertencerem a essa geração, reconhecida como a primeira a ter uma educação nos moldes do que realmente se deseja para a formação integral do cidadão e do profissional, especialmente de nível graduado.

Foi graças à educação que tiveram que tornou-se muito mais fácil para aqueles que desejaram seguir uma carreira em ciência realizarem os seus sonhos profissionais.

Naquele pequeno grupo havia já reconhecidos astrônomos, biólogos, físicos, geólogos, químicos, paleontólogos etc. Todos exerciam suas profissões de forma muito bem sucedida, além de serem, todos eles, professores, pois esta foi uma das mensagens incutidas na mente de todos eles enquanto estudantes: "aprendam uma profissão para exercer, mas deem sua contribuição como professor; aprendam as duas profissões para exercê-las com excelência."

Foi essa ideia que originou as Licenciaturas em todas as áreas do conhecimento, em que passou-se a dar ênfase aos aspectos pedagógicos. Todos passaram a aprender sobre educação; didática; história, filosofia e sociologia da ciência; ética; e instrumentação para o ensino de sua profissão. Tornou-se lugar comum levar para o ambiente de aprendizagem os resultados das pesquisas em ensino de ciências.

Foi inevitável o estabelecimento da valorização do professor, que a partir de então passou a ter uma carreira definida e um salário competitivo em todo o país, em comparação com as demais profissões. Foi assim que muita gente boa em suas profissões optou em permanecer e exercer a profissão docente.

É claro que muitos outros assuntos permearam aquele jantar em local tão agradável. Mas essa lembrança dos tempos de estudante os fez ainda mais conscientes de que outra educação foi possível, distinta daquela sem um perfil definido existente no país até o final da segunda década do século XXI.

Todos estavam felizes por serem quem eram, por terem tido a educação que tiveram, por serem brasileiros em um tempo tão favorável.
Ciclamio Leite Barreto, Natal, Dezembro 2009.

PÓS-ESCRITO
(em 20 de Dezembro, 2009):
As conversações sobre as mudanças climáticas realizadas em Copenhague, Dinamarca, encerradas na Sexta- feira, 18 de Dezembro, 2009, levaram o órgão promotor, as Nações Unidas, a "tomarem nota" do acordo resultante, o qual parece ser de apenas alguns países, não de todos. Ao contrário do "Protocolo de Kyoto", este atual acordo está apoiado efetivamente pelos Estados Unidos, que participou das conversações representado não apenas pelos técnicos, mas por autoridades como a Secretária de estado, Hillary Clinton, e o próprio presidente Barack Obama. O consenso final deixou em aberto a questão de se o acordo ganharia suporte pleno dos países envolvidos nas conversações sobre as limitações aos riscos das mudanças climáticas. Tudo indica que uma decisão mais efetiva ficou para a COP-16, a ser realizada em 2010 na cidade do México.
Para saber mais, acesse:
http://www.nytimes.com/pages/business/energy-environment/index.html

sábado, 5 de dezembro de 2009

A vocação inata do Brasil para a felicidade

Artigo publicado no jornal madridleño "El País", a propósito da escolha, pelo Comitê Olímpico Internacional, da cidade do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olimpicos de 2016:
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2009/10/14/ult581u3555.jhtm

Rio de Janeiro escolhida cidade-sede dos Jogos Olímpicos 2016.
Recebi de um potiguar que mora no Rio e aperfeiçoei esses versos em homenagem a essa escolha:
"A alegria já havia escolhido o Rio.
A beleza já havia escolhido o Rio.
O Brasil já havia escolhido o Rio.
O Sol já havia escolhido o Rio.
Até a Lua arriscou um palpite.
Só faltava o Comitê Olímpico Internacional."

http://www.cubadebate.cu/wp-content/uploads/2009/10/logo-rio-2016-201x250.jpg
Escolha da cidade do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016 se constitui em "Um triunfo do Terceiro Mundo", segundo Fidel Castro.

OOOOO

Astronomia desvenda segredos do Universo

Astronomia é das mais antigas dentre as ciências, também ainda das mais contemporâneas pelos surpreendentes resultados que obtém diariamente.

Há exatos 400 anos, o físico e astrônomo Italiano Galileu Galilei (que viveu de 1564 a 1642), usando de forma inédita um telescópio rudimentar, observou as manchas escuras sobre a superfície da Lua e identificou-as como mares.

Sua interpretação não estava correta, mas sua atitude deu origem a uma revolução na Astronomia.

Hoje, enviamos missões à Lua e descobrimos lá a existência de água.

No entanto, a despeito desses extraordinários avanços tecnológicos, muito acerca do Universo permanece desconhecido.

Os especialistas se deparam com uma miríade de surpresas em seu trabalho cotidiano, o que os leva a supor que no Universo elas acham-se meio que armazenadas.

Um mosaico gigante de uma remnante supernova obtido pelo telescópio espacial Hubble. (Imagem extraída da web: http://en.wikipedia.org/wiki/Astronomy)

Assim, eles têm indícios de que conhecemos somente 5% de toda a matéria existente.

Nos últimos 20 anos, mais que 350 planetas foram descobertos fora do nosso sistema solar, orbitando outras estrelas distintas do Sol, e há poucos meses pudemos apreciar via satélite as primeiras imagens deles.

Telescópios terrestres e espaciais exploram o Universo 24 horas por dia, e no entanto ele ainda permanece amplamente desconhecido.

A fim de auxiliar a humanidade a penetrar nos segredos do Universo, a Organização das Nações Unidas declarou 2009 o Ano Internacional da Astronomia.

Submetida pela Itália, a terra natal de Galileu, a iniciativa é conduzida pela Unesco e União Astronômica Internacional, que realizou em Agosto sua Reunião Anual no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro.

Com o motto “O Universo para você descobrir” o Ano Internacional da Astronomia 2009 visa estimular interesse em Astronomia entre o público em geral e especialmente na juventude.

Atividades têm sido realizadas ao redor do mundo, muitas com uma visão de popularizar o conhecimento astronômico, bem como uma série de eventos projetados tanto para estimular a pesquisa quanto para disseminar o conhecimento científico.

Em termos de pesquisa científica, os principais tópicos discutidos têm sido os da matéria escura e energia escura. Dizem os cientistas:

95% da energia total do universo não é visível no sentido que usualmente compreendemos, e assim as apelidamos de “matéria escura” e “energia escura.”

Os cientistas inventaram a noção da 'energia escura' para explicar um surpreendente fenômeno descoberto há uma década – a aceleração da expansão do Universo. De acordo com a teoria mais amplamente aceita até então, o Universo tinha estado se expandindo desde o Big Bang e se contrairia em um Big Crunch (lê-se “cranch”), uma grande implosão. Hoje sabemos que esta teoria é falsa, no entanto ainda não é claro o que causa a aceleração.”

Em termos de popularização da ciência, o principal interesse para os especialistas é educar a juventude e ensinar astronomia na escola.

Astronomia deve começar a ser corretamente ensinada já no ensino fundamental.

O mundo misterioso das estrelas e galáxias intriga fortemente as crianças.

Astronomia é um caminho excelente para ensinar a elas não somente sobre os fenômenos cósmicos, mas também matemática, física, óptica, química e mesmo biologia e ciência da computação.

A razão pela qual a Astronomia parece inacessível é porque ela não é suficientemente destacada nos currículos escolares.

A resultante ausência de conhecimento tem um impacto negativo: os cientistas ficam frequentemente frustrados, ao notarem que o obscurantismo algumas vezes prevalece sobre os fatos estabelecidos pela ciência.

Vamos pois incentivar nas escolas, nas ruas, nas praças, em casa, a aquisição de conhecimento sobre Astronomia, principalmente pelas crianças.

Ciclamio Leite Barreto, Novembro 2009

Em defesa da vida em paz na Terra

As mudanças climáticas são o assunto do momento.

Também pudera! O estrago que está para acontecer em um tempo relativamente
curto é imprevisível, por ser de abrangência global, intensidade inédita e
com inimagináveis desdobramentos para a vida no planeta.

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhLMWQIKfbLkeqfYvHRoLnk7X6fRYf1A2lRnwp86xID_UwaDjnfUp9SBcakGe6jUDZ5gem3DSvDCuV5JxjRQPte2R7lOyypoMHxfg9ejHWRL72gsEp70s9z8Y9s6CbBBhlQND8CyaXvXqA/s400/AQUECIMENTO+GLOBAL.JPG
Imagem eloqüente dos efeitos do aquecimento global

O apelo da reunião de cúpula sobre mudanças climáticas a ser realizada de
7 a 18 de Dezembro em Copenhague é o maior de todas as reuniões mundiais
prévias sobre a questão do preservação do meio ambiente.

Afinal, se não forem tomadas decisões urgentes, talvez muitas delas não
precisarão ser tomadas depois, pois pode não mais haver causa a defender.

Brasil, Estados Unidos, China e Índia já explicitaram propostas a serem levadas
Copenhague, cada uma a seu modo atendendo mais ou menos aos propósitos da
reunião.

Até Obama vai aproveitar a ida para receber o Prêmio Nobel da Paz e dar um
pulinho lá na reunião. Ou será o contrário?

Nota-se um sentimento mundial, inclusive no mundo corporativo, de que esta
é a hora do sacrifício, para não sacrificar a própria pele depois.

Mas, não basta que haja um acordo em Copenhague. Ele precisa ser cumprido.
O Protocolo de Kyoto foi um fiasco, mas sem ele já poderíamos ter 'perdido
o mato, só nos restando o cachorro...'

E é também evidente que ações no âmbito local são indispensáveis. Cada
país, cada região, cada estado ou província, cada município, precisa fazer
a sua parte.

É chegada a hora de atualizar as Agendas 21 que foram feitas, em todos os
níveis, sem a devida ênfase às questões relacionadas às mudanças
climáticas.

Por exemplo, cada município, cada estado, pode construir (para ontem, a
exemplo do Rio de Janeiro) uma política municipal, estadual, de mudanças
climáticas e intensificar campanhas, inclusive em parceria com empresas e
entidades da sociedade civil, junto à população para implementá-la,
mobilizando toda a sociedade.

Pode, inclusive, estabelecer metas periódicas de redução de emissões de
gases causadores do efeito estufa.

Para implementar uma política desse tipo é necessário contar com apoio
técnico especializado, especialmente no que concerne às mensurações para
fins de inventariar e monitorar tais emissões, especialmente de dióxido de
carbono, CO2.

As universidades, especialmente as públicas, e outros órgãos do município
ou do estado devem disponibilizar recursos humanos e materiais para este
fim junto aos governos municipais e estadual, que têm a obrigação de não
apenas serem receptivos, mas de promover políticas eficazes em defesa da
vida.


Enfim, se se queria uma crise para superar e aprender muito sobre a
natureza e a capacidade de trabalho conjunto da sociedade por uma causa
coletiva, aí está uma, a crise global das mudanças climáticas.

Se perdermos essa chance, talvez não seja possível contar a história.

Ciclamio Leite Barreto, 27 de Novembro, 2009.

Claude Shannon e os fundamentos da Internet

Há chances que o leitor já tenha ouvido a expressão “O mundo atual é inconcebível sem a Internet”, e é praticamente indiscutível ser verdade que essa revolução tecnológica, iniciada em 1968 nos laboratórios do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (o mesmo CERN que hoje abriga o Grande Colisor de Hadrons, LHC), tenha mudado definitivamente o mundo. Afinal, a ciência serve para compreender e, quando houver interesse, mudar o mundo. O ano de 1968 é um dos mais marcantes do século XX, quando fatos como a Revolução de Veludo, em Praga, o Movimento Estudantil, na França e em muitos outros países, o movimento hippie, e a luta dos brasileiros contra a ditadura que recrudescia, representaram fatos que contribuíram fortemente para mudar o mundo.

Mas o longínquo 1916 é um ano ao qual também devemos prestar a mais pungente memorabilidade, tanto pelo que propiciou aos avanços da ciência, quanto pelos tristes acontecimentos que marcaram conflitos mundo afora. No Brasil, o governo do presidente Wenceslau Braz (República Velha) usava pela primeira vez o avião, uma invenção recente do brasileiro Santos Dumont, para exterminar camponeses pobres (sem-terra) no trágico desfecho da guerra do Contestado. No mundo, era destaque a continuidade do genocídio e deportação sob marcha forçada dos armênios da Turquia, sob o Império Otomano, iniciada no ano anterior, bem como um dos auges da Primeira Guerra Mundial, a batalha do rio Somme, que custou ao exército britânico quase meio milhão de baixas, com 58 mil mortes só no primeiro dia (triste recorde até hoje). Também, devido justamente ao desespero que reinava no mundo devido aos horrores da guerra, esse é um dos poucos anos em que não houve premiação do Prêmio Nobel.

Felizmente, foi nesse ano em que a comunidade internacional teve contato com a surpreendente teoria da relatividade geral, desenvolvida pelo genial físico alemão Albert Einstein. Essa teoria começou a ser testada e confirmada no Brasil, por ocasião de um eclipse total do Sol, na cidade de Sobral, no Ceará, e hoje em dia é uma teoria fundamental para a compreensão da astrofísica e da cosmologia científica modernas. Também em 1916 nascia nos Estados Unidos, na zona rural do estado de Michigan, aquele que veio a se tornar um dos cientistas do século XX que deu uma contribuição de profundo desdobramento para mudanças: Claude Shannon, o pai da teoria da informação, uma ciência real devotada a mensagens, sinais, imagens, comunicação e computação. A teoria da Internet.

Como em um passe de futebol que resulta em um gol salvador, antes essa teoria não existia, ninguém jamais a tinha imaginado e, subitamente, lá estava ela, quase completamente pronta e madura, publicada em Julho de 1948 em um periódico da empresa em que Shannon então trabalhava, o Bell System Technical Journal, na forma de um paper simplesmente intitulado “A mathematical theory of communication” (Uma teoria matemática da comunicação).

Nesse ano, a informação tornou-se uma coisa. Tornou-se uma commodity, uma força – uma quantidade a ser medida e analisada. É apoiada nela que nosso mundo funciona. A informação é o nosso ouro e o nosso combustível. Quase tudo isso é devido a Claude Shannon.

A fim de tratar cientificamente a informação, os engenheiros precisavam responder o mesmo tipo de questão que faziam acerca da matéria e energia: quanto? quão rápido? Como partículas fundamentais da informação, Shannon propôs os dígitos binários como unidade de medida, os quais ficaram conhecidos por 'bits' (acrônimo da expressão da língua inglesa, binary digits). Um bit é uma escolha: ligado/desligado (on/off), sim/não, zero/um etc. Shannon percebeu a semelhança desses pares.

A informação é algo fungível, passível de ser substituída por outra coisa de mesma espécie: sinais de fumaça e de semáforos, telégrafo e televisão, celulares e telemetria, todas se canalizam transportando bits.

Na eletrônica digital, que tomou por base o sistema binário, tornou-se conveniente uma combinação de oito bits, que ficou conhecida por byte. Muitos bytes deram origem às tão comuns expressões do mundo atual, que não passam de medidas da quantidade de informação: bytes, kilobytes (103 bytes), megabytes (106 bytes), gigabytes (109 bytes), terabytes (1012 bytes) etc. A rapidez de transmissão de informação seria então medida em bytes por segundo (byte/s ou bps).

Uma preocupação essencial de Shannon era com circuitos elétricos. Ele intuiu que a coexistência das possibilidades on/off e sim/não significava que os circuitos poderiam trazer embutido alguma coisa afim com a lógica. Eles poderiam não somente transmitir bits, mas também poderiam manipulá-los. Incidentalmente e através de um trabalho independente, realizado por seus colegas John Bardeen, Walter Houser Brattain e William Bradford Shockley, naquele mesmo ano, os Laboratórios Bell preparavam-se para anunciar ao mundo uma nova e revolucionária invenção: o transistor, um elemento ativo de circuito, que podia realizar exatamente tarefas tais como transmitir e amplificar bits.

Em 1948, no mesmo mês de Dezembro em que era anunciado o transistor, a Assembléia Geral das Nações Unidas proclamava e adotava a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nesse mesmo ano já havia sido criado o estado de Israel e, no Brasil, os cientistas ainda acalentavam o sonho de fundar o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) como órgão de fomento à pesquisa e à formação de recursos humanos.

Claude Shannon morreu em 2001, vitimado pela doença de Alzheimer. Sua contribuição é uma das mais inestimáveis, pois se é inconcebível pensar o mundo de hoje sem a Internet, teria sido igualmente inconcebível pensar a Internet sem o conhecimento propiciado por Shannon sobre a teoria da informação.

Ciclamio L. Barreto, Natal, Novembro 2009

Licenciaturas sem mediocridade

O que fazer para livrar nossas Licenciaturas da mediocridade

Ciclamio L. Barreto

O que queremos em relação à educação no Brasil?

Bem, queremos muitas coisas, visamos muitos objetivos, almejamos o ideal.

Nisto tudo, pode se incluir muitos aspectos, tais como uma educação ampla, conscientizadora, crítica, que possa realmente formar cidadãos com habilidades e competências para exercerem o enfrentamento de problemas numa sociedade em mudança como a que vivemos no século XXI.

E com capacidade de discernirem sobre opções sustentáveis dentre todas que são postas à disposição pelas tecnologias onipresentes na vida contemporânea.

Não é nenhuma novidade que os cursos de formação de professores, especialmente nas áreas das ciências básicas -biologia, física, química-, e certamente também os de matemática, acham-se questionados pelo desempenho que têm tradicionalmente oferecido à sociedade.

São cursos que se incluem dentre aqueles com as mais baixas taxas de sucesso, formando uma fração ínfima dos alunos ingressantes em cada turma.

Ademais, a qualidade desses professores, por mais capacitados que possam sair da academia em termos de domínio de conteúdos específicos (mas isso também, em geral, não acontece), deixa muito a desejar no que diz respeito ao domínio dos métodos e técnicas eficientes e contemporâneos de ensino.

Muitos deles são incapazes de elaborar planos de aula compatíveis com as exigências atuais de uma educação interdisciplinar e integrada das ciências em que o professor exerça um papel preponderante de facilitador da aprendizagem e que os alunos sejam capazes de construir ou reconstruir de forma prazerosa e eficiente o conhecimento.

É preciso também estar consciente das razões pelas quais tais cursos são cada vez menos procurados pelos candidatos aos processos seletivos em todo o país, o que apenas em parte é explicado pelos baixos salários pagos aos professores.

Finalmente, é preciso também estar consciente de que este é um problema de âmbito mundial, que afeta igualmente países desenvolvidos, países em desenvolvimento e países menos desenvolvidos.

Recentemente, o secretário de educação dos Estados Unidos (cargo equivalente ao de ministro da educação brasileiro), Arne Duncan, explicitou o fato de forma precisa, apelando para mudanças amplas no modo de selecionar e treinar professores.

Se isso é verdadeiro num país como os Estados Unidos, certamente é ainda mais verdadeiro em nosso país, que há muitos anos tem relegado a educação, e muito especialmente a formação de professores, à mais desvalorizada prioridade.

Se realmente queremos boas escolas, é essencial criar uma massa crítica de professores bem formados, de profissionais bem qualificados.

E se queremos que pessoas talentosas, que possam se apaixonar pela profissão, tornem-se esses grandes educadores, então temos que atraí-los com programas de excelência e treiná-los apropriadamente no metiér e nas boas práticas do ensino.

E assegurar a eles um salário digno, que pelo menos garanta a necessária tranquilidade a sua sobrevivência e a da sua família, bem como suas necessidades de atualização profissional e de convivência social, tais como a aquisição de livros e de computadores (incluindo acesso à Internet) e a possibilidade de usufruir de uma vida cultural.

Paradoxalmente, as universidades públicas brasileiras têm um comportamento típico em relação à educação, e muito mais criticamente em relação à formação de professores: atuar como avestruz, enfiando o cabeça no chão, como se se tratasse de um empreendimento intelectualmente inferior.

Os departamentos acadêmicos das áreas de biologia, física, matemática e química nessas instituições são guetos especializados nessa discriminação.

Esse comportamento é ainda mais exacerbado pelas universidades privadas.

O resultado é que os estudantes mais qualificados acham-se frequentemente nos cursos sem qualquer interesse na educação, tais como ciência da computação, medicina, engenharias etc., enquanto alguns dos professores mais inspiradores não estão trabalhando, e em alguns casos nem se interessam em trabalhar com os estudantes que querem ser professores.

O significado disto é que estudantes comparativamente mais fracos em programas menos intelectualmente rigorosos são aqueles que estão se preparando para serem professores.

Isto não exclui a possibilidade de que nesses programas haja docentes formadores comprometidos com a qualidade da formação de professores para a educação básica, mas o envolvimento institucional inexistente torna as coisas muito difíceis para esses poucos grupos de abnegados.

Sendo assim, o primeiro passo é conseguir que as melhores instituições, que no caso brasileiro são indubitavelmente as universidades públicas, se lancem nesse bom combate.

Se a educação foi um tópico bastante bom para Platão, Comenius, John Dewey, Karl Popper, Jean Piaget, e Vigostsky e tantas outras reais celebridades, então devia ser também bastante boa para os corpos docentes das universidades do século XXI.

Esses novos programas de formação de professores, que assegurarão um status profissional compatível com as necessidades daqueles que os escolherem, precisam ser seletivos, requerendo um ponto de corte razoável no processo seletivo (vestibular) e uma dedicação intensiva e exclusiva, eventualmente recompensada com uma bolsa de manutenção, tal como acontece nos casos dos programas PET e Pibid.

Esses novos Licenciandos poderiam assinar um termo de compromisso para prestarem o estágio opcional, previsto pela nova lei de estágio e regulamentado por resolução específica do Colegiado do curso (máximo de 20 horas semanais), desde que pudessem ser cuidadosa e minuciosamente acompanhados e avaliados ao longo do processo, assim como um motorista aprende a guiar ou um cirurgião aprende a operar.

Essa atividade não incluiria o estágio curricular obrigatório (400 horas), também em escolas públicas e com supervisão intensiva, evidentemente ainda mais acompanhado e avaliado, bem como outro termo de compromisso para lecionar em escolas públicas por pelo menos três anos após sua formatura, com a possibilidade de atendimento profissional nesse período pela instituição formadora, na condição de recém formado.

Há que se repensar esses estágios supervisionados, em que o futuro professor é observado poucas vezes, quando o é, durante um semestre.

Eles precisam de um treinamento como é feito (ou como deveria ser feito) com os médicos: precisam trabalhar lado a lado com professores experientes, obtendo plena realimentação, tendo plenas oportunidades de observar e assumir responsabilidade cada vez maior a medida que se aprimoram.

Uma vez que consigamos formar uma massa crítica desses bons professores, que eles estejam em condições de ingressar em um programa de mestrado profissional na área de ensino de ciências e matemática, tal como temos na UFRN, então precisaremos treiná-los diferentemente de como temos feito no passado.

Habilidades tais como elaboração de planos de aula eficientes, embora úteis, não são o que transformarão um estudante promissor em um bom professor.

Antes de qualquer coisa, os futuros professores devem continuar a estudar o assunto que esperam ensinar, e fazê-lo sob a orientação de professores proeminentes.

Não apenas proeminentes ou excelentes no seu campo profissional, por exemplo da física da matéria condensada, da astrofísica ou da cosmologia, ou da genética, ou da evolução biológica, ou da química industrial, ou da química de produtos naturais, mas que se empenham além disso no fazer pedagógico, seguindo de preferência as prescrições interessantíssimas da pesquisa em ensino de ciências, constantes da literatura internacional especializada na área.

Para isso, esses professores não precisam ser especialistas nessa área, mas precisam ter o interesse de se informarem sobre tais avanços, inclusive interagindo com a comunidade nacional da área, pelo menos consultando as publicações nacionais concernentes.

E não faz qualquer sentido ao todo parar de estudar aquilo que se quer ensinar justamente no momento em que se começa a aprender como fazê-lo.

A formação de professores, seja a inicial (Licenciatura) ou continuada (mestrado profissional, especialização etc.), tem muito também a aprender de programas de psicoterapia familiar.

Esses terapeutas dispendem um bom tempo observando videotapes deles próprios em ação, refletindo sobre suas sessões e discutindo os momentos mais difíceis de sua ação com terapeutas seniores a fim de explorar outros modos que eles poderiam ter respondido.

Da mesmíssima forma, jovens professores precisam registrar seus encontros diários com suas classes e depois, com supervisores e seus pares, ter sérias conversações, de mente aberta, acerca do que está e do que não está funcionando.

Muitos cientistas não gostam de trabalhar em equipe quando se trata de ensino, pois se julgam acima de qualquer questionamento sobre seu desempenho como professor.

Geralmente, são mais dóceis a um trabalho em equipe quando se trata da pesquisa, pois então há uma dependência mais explícita do que no ensino do avanço em relação à interação entre os envolvidos.

Entretanto, desde o século XX já era inconcebível esta atitude, que se torna indispensável no século XXI, sob pena de se manter o status quo do ensino tradicional em que, na melhor das hipóteses, o professor pensa que ensina e os estudantes pensam que aprendem; isso quando não é feito o famoso pacto da mediocridade, em que essa troca é deliberada (vira um faz-de-conta) em conjunto entre o professor e a turma.

Uma lição corriqueira na literatura internacional a respeito de crianças e adolescentes é o fato de que se desconsiderarmos as necessidades de desenvolvimento desses seres enquanto estudantes, é improvável sermos bem sucedidos em ensiná-los.

Assim, os seus professores precisam aprender como observá-los, usando pesquisa e teoria para compreender o que estão vendo.

Evidentemente, a massa crítica acima referida deve ser construída em cada escola pública, contemplando-as em editais de concursos públicos com uma quantidade de vagas compatível com a necessidade de formação de equipes que pensam a educação na perspectiva de uma formação que leve em conta todas essas necessidades.

Essa providência evitará que os ansiosos jovens professores em início de carreira sintam-se deprimidos ou abandonem o ensino por se sentirem entediados, ineptos, isolados ou marginalizados.

Ou que sigam o mau exemplo de professores antigos acomodados que não se interessam em se aperfeiçoar profissionalmente.

Ao contrário, com a massa crítica garantida, eles se sentirão parte de uma comunidade robusta e profissionais promissores interessados em progredir. Eles batalharão e aprenderão juntos. Bons professores carecem de bons colegas.

Do lado das escolas, para que elas se consertem, carecem de programas de ensino, projetos pedagógicos, que sejam ricos em recursos, interessantes, de longo alcance e solícitas como os jovens que queremos atrair à profissão.

Uma escola em que os professores são inteligentes, bem educados, habilitados e felizes de estarem lá, certamente será uma escola com crianças ou adolescentes que estarão tendo uma boa educação.


Ciclamio Leite Barreto é professor associado na UFRN, lotado no Depto. de física, e Coordenador do curso a distância de Licenciatura em física ofertado por esta universidade.