sábado, 5 de dezembro de 2009

Claude Shannon e os fundamentos da Internet

Há chances que o leitor já tenha ouvido a expressão “O mundo atual é inconcebível sem a Internet”, e é praticamente indiscutível ser verdade que essa revolução tecnológica, iniciada em 1968 nos laboratórios do Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (o mesmo CERN que hoje abriga o Grande Colisor de Hadrons, LHC), tenha mudado definitivamente o mundo. Afinal, a ciência serve para compreender e, quando houver interesse, mudar o mundo. O ano de 1968 é um dos mais marcantes do século XX, quando fatos como a Revolução de Veludo, em Praga, o Movimento Estudantil, na França e em muitos outros países, o movimento hippie, e a luta dos brasileiros contra a ditadura que recrudescia, representaram fatos que contribuíram fortemente para mudar o mundo.

Mas o longínquo 1916 é um ano ao qual também devemos prestar a mais pungente memorabilidade, tanto pelo que propiciou aos avanços da ciência, quanto pelos tristes acontecimentos que marcaram conflitos mundo afora. No Brasil, o governo do presidente Wenceslau Braz (República Velha) usava pela primeira vez o avião, uma invenção recente do brasileiro Santos Dumont, para exterminar camponeses pobres (sem-terra) no trágico desfecho da guerra do Contestado. No mundo, era destaque a continuidade do genocídio e deportação sob marcha forçada dos armênios da Turquia, sob o Império Otomano, iniciada no ano anterior, bem como um dos auges da Primeira Guerra Mundial, a batalha do rio Somme, que custou ao exército britânico quase meio milhão de baixas, com 58 mil mortes só no primeiro dia (triste recorde até hoje). Também, devido justamente ao desespero que reinava no mundo devido aos horrores da guerra, esse é um dos poucos anos em que não houve premiação do Prêmio Nobel.

Felizmente, foi nesse ano em que a comunidade internacional teve contato com a surpreendente teoria da relatividade geral, desenvolvida pelo genial físico alemão Albert Einstein. Essa teoria começou a ser testada e confirmada no Brasil, por ocasião de um eclipse total do Sol, na cidade de Sobral, no Ceará, e hoje em dia é uma teoria fundamental para a compreensão da astrofísica e da cosmologia científica modernas. Também em 1916 nascia nos Estados Unidos, na zona rural do estado de Michigan, aquele que veio a se tornar um dos cientistas do século XX que deu uma contribuição de profundo desdobramento para mudanças: Claude Shannon, o pai da teoria da informação, uma ciência real devotada a mensagens, sinais, imagens, comunicação e computação. A teoria da Internet.

Como em um passe de futebol que resulta em um gol salvador, antes essa teoria não existia, ninguém jamais a tinha imaginado e, subitamente, lá estava ela, quase completamente pronta e madura, publicada em Julho de 1948 em um periódico da empresa em que Shannon então trabalhava, o Bell System Technical Journal, na forma de um paper simplesmente intitulado “A mathematical theory of communication” (Uma teoria matemática da comunicação).

Nesse ano, a informação tornou-se uma coisa. Tornou-se uma commodity, uma força – uma quantidade a ser medida e analisada. É apoiada nela que nosso mundo funciona. A informação é o nosso ouro e o nosso combustível. Quase tudo isso é devido a Claude Shannon.

A fim de tratar cientificamente a informação, os engenheiros precisavam responder o mesmo tipo de questão que faziam acerca da matéria e energia: quanto? quão rápido? Como partículas fundamentais da informação, Shannon propôs os dígitos binários como unidade de medida, os quais ficaram conhecidos por 'bits' (acrônimo da expressão da língua inglesa, binary digits). Um bit é uma escolha: ligado/desligado (on/off), sim/não, zero/um etc. Shannon percebeu a semelhança desses pares.

A informação é algo fungível, passível de ser substituída por outra coisa de mesma espécie: sinais de fumaça e de semáforos, telégrafo e televisão, celulares e telemetria, todas se canalizam transportando bits.

Na eletrônica digital, que tomou por base o sistema binário, tornou-se conveniente uma combinação de oito bits, que ficou conhecida por byte. Muitos bytes deram origem às tão comuns expressões do mundo atual, que não passam de medidas da quantidade de informação: bytes, kilobytes (103 bytes), megabytes (106 bytes), gigabytes (109 bytes), terabytes (1012 bytes) etc. A rapidez de transmissão de informação seria então medida em bytes por segundo (byte/s ou bps).

Uma preocupação essencial de Shannon era com circuitos elétricos. Ele intuiu que a coexistência das possibilidades on/off e sim/não significava que os circuitos poderiam trazer embutido alguma coisa afim com a lógica. Eles poderiam não somente transmitir bits, mas também poderiam manipulá-los. Incidentalmente e através de um trabalho independente, realizado por seus colegas John Bardeen, Walter Houser Brattain e William Bradford Shockley, naquele mesmo ano, os Laboratórios Bell preparavam-se para anunciar ao mundo uma nova e revolucionária invenção: o transistor, um elemento ativo de circuito, que podia realizar exatamente tarefas tais como transmitir e amplificar bits.

Em 1948, no mesmo mês de Dezembro em que era anunciado o transistor, a Assembléia Geral das Nações Unidas proclamava e adotava a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Nesse mesmo ano já havia sido criado o estado de Israel e, no Brasil, os cientistas ainda acalentavam o sonho de fundar o Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq) como órgão de fomento à pesquisa e à formação de recursos humanos.

Claude Shannon morreu em 2001, vitimado pela doença de Alzheimer. Sua contribuição é uma das mais inestimáveis, pois se é inconcebível pensar o mundo de hoje sem a Internet, teria sido igualmente inconcebível pensar a Internet sem o conhecimento propiciado por Shannon sobre a teoria da informação.

Ciclamio L. Barreto, Natal, Novembro 2009

Nenhum comentário: